domingo, 6 de junho de 2010

MONÓLOGO DE UM MENINO DE 12 ANOS

Meu nome é Joarez, nasci numa casinha situada à beira de um valetão, casinha de lâmina, bem rústica.
Meus pais nem ligam para mim, e sabem por quê?Porque eles acham que a bebida é mais importante para eles do que eu. Vejam só, meu pai é um alcoólatra, chega em casa embriagado, batendo e quebrando tudo. Minha mãe fica em casa e não deixa de seguir o mesmo exemplo, batendo em mim, é só que ela sabe fazer, e além do mais bebe que nem um gambá. Eu sei que meu pai trabalha, e não perde um dia de serviço, sei também que um aperitivo não faz mal a ninguém, mas se embriagar já é demais. E eu nada posso fazer, afinal, sou uma criança.
Quando peço algo para comer, recebo uma resposta que me arrasa, fico pequeno com um verme. Eu sei que vocês por certo já receberam noticias tristes. Mas quando se é ainda criança, não queremos saber se tem ou não algo para comer ou beber. O que interessa é matar a nossa fome e sede. Preciso também de agasalho, porque eu sei quanto dói o frio no corpo, mas o que realmente me dói, no fundo de meu coração, é ser maltratado, não recebendo uma palavra de amor ou de carinho, nem dos meus pais, nem dos que cruzam comigo nas ruas, e que muitas vezes, só sabem chamar-me de vagabundo, maloqueiro e marginal. Quando vou pedir esmola porque meus pais me mandam, muitos não me dão esmola porque acham que estão incentivando para que eu não trabalhe, apenas viva na moleza. Mas que posso eu fazer além de pedir esmola? Nunca recebi nenhum incentivo, nenhuma orientação? O que é que vocês esperam de um garoto que além de passar fome, frio e sede, não conhece sequer o que é um abraço? Ainda alguns adultos têm a ironia de quererem que eu cresça e seja um homem de bem.
Certo dia, um vizinho meu teve pena de mim, conversou comigo, e até propôs um negocio para mim. Eu iria vender maças nas ruas da cidade. Que alegria senti naquele momento, até que enfim, alguém estava dando-me valor e eu poderia ganhar alguns trocados, poderia ajudar em casa e não passaria fome, pelo menos não tanta fome. Mas o mais importante de tudo, é que eu não iria pedir esmola, eu pela primeira vez estava sendo útil, enfim estava alguém. Eu vendia todos os dias, e vendia bastante, todos compravam, e eu sentia-me feliz por isso. Até que um belo dia, vi todos os meus amigos correndo, fugindo, eles estavam apavorados, parecia que tinham visto um monstro. E eu de nada sabia, comecei a correr também, não perdi tempo. Corri com eles, fugindo sei lá de que, mas fugi. Fugi perdendo algumas maçãs, assim como meus amigos também perderam algumas de suas mercadorias correndo todos apavorados, indo ao encontro de algumas pessoas que passavam por ali. Depois que tudo se acalmou, fui saber, o porquê de toda aquela correria. Confesso que quando soube do motivo de tudo aquilo fiquei magoado e muito triste, poxa afinal eu era um garoto que estava trabalhando e não um assaltante. Era tudo por causa do fiscal não sei do que, que viera a passar por ali. Alguns diziam que ele queria nos prender outros diziam que ele queria apenas nossas mercadorias. Fui para outro canto da cidade, mas era a mesma coisa e eu não podia vender minhas mercadorias sossegado que sempre tinha alguém para me perturbar.
Logo naquele momento em que estava incentivado pelo trabalho, ganhava meu pão de cada dia, e tudo foi água abaixo. Afinal de contas eu não era nenhum marginal, nenhum assaltante era apenas um garoto, que incentivado pelo trabalho estava crescendo com forças para progredir e ser alguém na vida. Mas agora sei muito bem que é arriscado trabalhar, pedir esmola é feio, e trabalhar é o mesmo que renunciar a vida, porque vou voltar a passar fome, sede e frio. Tudo porque eu não tive um carinho, e um incentivo de meus pais. TUDO O QUE EU QUERO É SORRIR, CANTAR, BRINCAR, VESTIR, ENFIM EU QUERO UMA CHANCE PARA SER ALGUEM NA VIDA! QUERO É SER ÚTIL! QUERO UMA CHANCE DA SOCIEDADE, PORQUE MEUS PAIS NÃO ME DERAM. EU PRECISO DE CARINHO. AFINAL SOU APENAS UMA CRIANÇA. MEU DEUS! MEU DEUS! EU TENHO APENAS 12 ANOS..



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